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Julho de 2020

“- Eles dizem que um negro não pode ser da Pátria Mãe.
- E o que você diz?
- Eu digo que sou alemã.”

(Leyna Schlegel)

Nossa indicação de filme de hoje em parceria com o GEAP é de um filme controverso. ”Amor em Tempos de ódio” se propõe narrar a história de amor entre Leyna Schlegel (Amandla Stenberg) uma jovem negra alemã e Lutz (George MacKay) um membro da Juventude Hitlerista alemã. Alvo de muitas críticas, principalmente sobre a relação romântica entre os protagonistas, a obra de Amma Asante retrata o drama das “crianças da Renânia” e da população negra alemã no período do regime nazista (1933-1945).

Apesar das críticas, o filme apresenta personagens complexos e controversos fugindo de uma narrativa maniqueísta com heróis e vilões bem definidos. Os conflitos entre a identidade negra e Alemã de Leyna, a postura de Lutz antes e depois de combater na Guerra, a crise do meio-irmão de Leyna, Koen (Tom Sweet), ao receber na Juventude Hitlerista ensinamentos diferentes dos que aprendeu em casa, são exemplos das abordagens de sucesso de Asante.

”Amor em Tempos de Ódio” é uma obra relevante por tratar de importantes indivíduos históricos pouco mencionados ou conhecidos, como os negros alemães e a participação de soldados africanos nas duas Grandes Guerras Mundiais do século XX.


Mais uma indicação do GEAP aqui no nosso feed!

Ousmane Sembène é um diretor senegalês e um dos mais importantes nomes do cinema africano. Suas obras abordam temas importantes da história do Senegal e de toda a região do Oeste Africano, a chamada Senegâmbia. Dentre suas obras de destaque estão Moolaadé (2004), Ceddo (1974), Campo Thiaroye (1988) e a indicação de hoje, Emitaï (1971).

O filme trata de um vilarejo Diola na colônia França onde hoje é o Senegal. Seu objetivo é abordar os impactos da Segunda Guerra Mundial sobre os territórios coloniais e principalmente sobre os indivíduos africanos e suas tradições. A problemática central do filme são os alistamentos forçados de jovens Diola ao exército francês e, posteriormente, da cobrança de impostos e dos saques da colheita de arroz realizados pela administração colonial, a fim de manter o exército francês durante a Guerra.

Sembène denuncia os abusos do imperialismo francês e reforça a importância da participação africana na “Guerra dos Brancos”. Emitaï traz uma narrativa não ocidental que amplia os cenários de conflito da Segunda Guerra Mundial, inclui novos protagonistas e redefine às percepções de mocinhos e vilões.

“Você acha que conseguiríamos escapar do que está acontecendo? Fingir que essa insanidade não é real?”

(Jan Kubiš)

Nessa semana, a nossa indicação de filme é “Operação Antropoide”, do diretor Sean Ellis, que traz a história da operação homônima que resultou no assassinato do protetor do Reich Reinhard Heydrich. No filme, acompanhamos um grupo de resistentes liderado por Jozef Gabčik e Jan Kubiš, que foram selecionados pelo governo tcheco para realizar o atentado à vida de Heydrich.

Naquele momento, Heydrich era o encarregado do governo da Boêmia e Morávia e encarou uma ferrenha resistência tcheca no início de suas atividades. A reação do governador foi deter e executar àqueles participantes do movimento, resultando na morte de 404 pessoas nos primeiros dois meses de seu comando, de acordo com o historiador Richard Evans. Cerca de 1300 pessoas foram enviadas para campos de concentração. O sucesso de Heydrich na aplicação de tais medidas alarmou o governo tcheco, que cumpria exílio em Londres. Sem uma resistência atuante, a posição do governo exilado era frágil, especialmente considerando o panorama após a guerra. Diante disso, o governo britânico concordou com os tchecos sobre a necessidade de assassinar o protetor do Reich.

Após receberem treinamento em técnicas de sabotagem e espionagem dos britânicos, Jozef Gabčik e Jan Kubiš voaram para os arredores de Praga em maio de 1942 para dar cabo de sua missão. No filme, acompanhamos o desenrolar dessa árdua tarefa, bem como vemos as dificuldades enfrentadas pelos resistentes ao chegarem na capital tcheca. Os aspectos mais latentes da resistência em um regime totalitário são a sua improbabilidade e a sua irremediável necessidade, algo que fica claro ao acompanharmos a árdua trajetória de Gabčik, Kubiš e os demais envolvidos na operação.
 

Agosto de 2020

“Nós também lutamos por esse país”

(Hector Negron)

Mais uma indicação do GEAP aqui no nosso feed!

A indicação de hoje começa com um misterioso assassinato. Hector Negron,um homem negro estadunidense, veterano condecorado da Segunda Guerra Mundial, atira em um homem no caixa de um banco. As motivações não estão claras para os policiais ou jornalistas debruçados sobre o caso, mas a cabeça de uma estátua, encontrada no apartamento do assassino leva as investigações até o interior da Itália, na região da Toscana onde em 1944 Hector serviu com na 92ª Divisão Buffalo, uma divisão do exército americano, à época, formada principalmente por soldados negros.

Spike Lee, nessa obra de 2008, nos leva a refletir sobre os impactos da 2ª Guerra na Itália, mais especificamente na cidade de Sant’Anna di Stazzema, que sediou um grande massacre de civis em Agosto de 1944. O filme aborda tangencialmente os conflitos raciais dos EUA que impactam a Divisão Buffalo durante os conflitos, a resistência italiana ao Fascismo de Mussolini e também os conflitos internos dentro do exército nazista. Milagre em Sant’Ana é acima de tudo um filme sobre humanidades e afetos que ultrapassam a narrativa nacionalista tão comum em filmes do mesmo gênero.

“Agora ouça, Dmitri, você sabe que sempre conversamos sobre a possibilidade de haver algo errado com a bomba. A bomba, Dmitri. A bomba de hidrogênio. É, pois bem, acontece que um dos nossos comandantes teve um problema e ficou com a cabeça um pouco abalada. Sabe, ficou maluquinho e fez uma coisa maluca. Bem, eu vou lhe contar o que ele fez: ordenou que os aviões dele bombardeassem o seu país” (Presidente Merkin Muffley no telefone com o premiê russo)

O filme que chegou ao Brasil com o nome “Dr. Fantástico”, do original “Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb”, faz uma crítica ferrenha e é uma famosa sátira do período que conhecemos como Guerra Fria. Dirigido por Stanley Kubrick e lançado em 1964, o filme foi inspirado no romance “Red Alert”, de Peter George, e narra a empreitada de um general insano que planeja um ataque nuclear aos comunistas, sob alegação de que estes estariam sabotando os reservatórios de água dos Estados Unidos. Concomitantemente, vemos o presidente dos Estados Unidos com seus inúmeros assessores no pentágono, tentando reparar a crise e impedir o ataque.

Com a crise dos mísseis de Cuba fresca na memória e a tensão da possibilidade de um ataque nuclear pairando no ar, Kubrick ironiza o contexto mundial, mostrando o potencial desastre que aconteceria caso a tecnologia das bombas de hidrogênio chegassem à pessoa errada. A paranoia do General Jack Ripper critica um patriotismo suicida estadunidense, que poderia levar à cabo uma destruição imensurável. Além disso, no papel do dr. Strangelove, vemos uma alfinetada com relação aos nazistas que voaram pelo Atlântico e continuaram trabalhando normalmente sob supervisão dos estadunidenses nos mais diversos projetos - de foguetes à bombas. Não podemos deixar de ressaltar o comportamento de Strangelove, que ironiza os nazistas em si, com as saudações involuntárias que o cientista tenta, sem sucesso, controlar. O retrato de “cientista maluco” também é algo que não deixa a desejar, configurando um arquétipo comum de representação dos nazistas no cinema.

Bom filme! 📽

Setembro de 2020

“Nesta terra que jamais seria deles, e trabalharam até suar, eles suaram até sangrar, e eles sangraram até morrer. Morreram de dedos cravados na terra castanha e dura, que jamais seria deles”

(Pappy McAllan)


Essa talvez seja a indicação favorita do GEAP. "Mudbound" é um filme trágico que acompanha a história de duas famílias no Sul dos Estados Unidos, mais especificamente no vale do rio MIssissipi. Os McAllan são uma família branca de antigos escravocratas e fazendeiros, enquanto os Jackson são uma família negra que trabalha para os McAllan e vivem em suas terras há gerações.

Nossos protagonistas Jamie McAllan (Garrett Hedlund) e Ronsel Jackson (Jason Mitchell) são soldados que lutaram na Segunda Guerra Mundial, onde eram vistos como heróis. Porém, voltando para os EUA, tem que superar seus traumas e dilemas em um mundo racista e violento. As experiências comuns da guerra fará surgir entre os dois uma amizade profunda que afronta as políticas de segregação norte-americana e o pensamento conservador da comunidade que frequentam.

Dee Rees expõe de forma dramática a complexidade da relação entre essas duas famílias que longe de limitar-se à questão do trabalho e da terra, é uma relação eminentemente humana construída num cenário de afetos, empatia e antipatia, amor, desamor e ódio. Em suma, um filme, como diz o título, de lágrimas sobre Mississipi.

“Parece estranho terminar a vida em um lugar tão horrível, mas durante três anos eu tive rosas e não pedi desculpas a ninguém. Eu morrerei aqui. Cada pedacinho do meu ser perecerá. Cada pedacinho, menos um. O da integridade. É pequeno e frágil e é a única coisa que vale a pena ter. Nós jamais devemos perdê-lo. Nem deixar que o tomem de nós”

(Valerie Page)


Dirigido por James McTeigue, “V de Vingança” combina uma série de elementos característicos dos autoritarismos e totalitarismos para criar um futuro distópico - agora pouco distante dos nossos dias, tanto temporalmente, quanto factualmente - no qual o Reino Unido está sob um regime totalitário. O Alto Chanceler Adam Sutler, ditador do Partido Fogo Nórdico, sobe ao poder após controlar o avanço de uma pandemia misteriosa que assola toda a Europa. Nesse contexto, o terrorista Codinome V busca meios para libertar o país de sua assombrosa realidade.

O personagem mobiliza a data de 5 de novembro para retomar o atentado ao parlamento britânico realizado por Guy Fawkes, em 1605, prometendo dar continuidade à destruição pretendida. O objetivo é que os cidadãos britânicos o apoiem na explosão do edifício que é símbolo do governo. Em meio à narrativa, V encontra Evey, uma jovem que estava sendo ameaçada por membros da polícia secreta - os “Homens Dedo” - por sair de casa após o toque de recolher. Ao salvá-la, ele encontra uma aliada inesperada.

O nacionalismo, a vigilância constante da população, a censura e a criação de inimigos da nação, como judeus, negros e homossexuais, são alguns dos aspectos que ficam claros ao longo da narrativa do filme. V pode ser visto como um personagem alegórico, representando, mais do que um simples resistente, uma personificação de ideias como liberdade, democracia e justiça. A redenção de Evey aparece como ponto incômodo na narrativa, devido à relação romântica traçada entre ela e V. A resistência, entretanto, é um ponto bem retratado no filme, que mostra claramente as dificuldades e impotências sentidas diante desse tipo de regime político.

Outubro de 2020

“Receio ter de protestar: eu não pertenço ao círculo dos filósofos, minha profissão, se podemos assim dizer, é a teoria política. Não me sinto de modo algum filósofa, nem creio ter sido aceita no círculo dos filósofos como você gentilmente supõe. Mas, para falar da outra questão levantada em suas observações iniciais: você diz que a filosofia costuma ser vista como uma ocupação masculina, porém não tem de continuar sendo uma ocupação masculina”

(Hannah Arendt em “Zur Person”)

Em setembro de 1964, Hannah Arendt deu uma entrevista ao jornalista Günter Gaus, no programa “Zur Person”, transmitida no mesmo ano, em outubro, pelo canal de televisão alemão ZDF. Nela, Arendt comenta sua trajetória pessoal, desde a infância até a emigração para os Estados Unidos, em virtude da ascensão do nazismo em sua terra natal, e também esclarece alguns pontos em relação às polêmicas acerca de seu livro “Eichmann em Jerusalém - Um relato sobre a banalidade do mal”. A obra havia sido recentemente lançada quando da entrevista, em 1963. Além disso, ela explora temáticas relacionadas ao livro “A condição humana”, um dos mais importantes de Arendt, bem como conta sobre seu processo de escrita e ressalta a importância que a noção de compreensão tem na sua produção.

A entrevista foi parcialmente traduzida para o inglês e publicada na coletânea de ensaios “Essays in Understanding”, denominada como “What remains: the language remains” (em tradução literal, “O que resta: a língua resta”). Em nosso país, ela foi publicada no livro “Compreender”, pela editora Companhia das Letras. A versão da entrevista que indicamos aqui foi disponibilizada e traduzida pelo Centro de Estudos Hannah Arendt (@hannaharendtbr) a partir do áudio original em alemão e recebeu o título “O que fica é a língua materna”. Seguindo a linha indicada por Arendt em sua fala, esse é um importante registro para quem quiser compreender mais sobre a sua vida e pensamento.

“Você sabe por que as pessoas gostam de violência? É porque é bom. Os humanos acham a violência profundamente satisfatória. Mas remova a satisfação e o ato se torna ... vazio”

(Alan, Turing, “O Jogo da Imitação”)

Vencedor do Oscar de 2015 na categoria de Melhor Roteiro adaptado, o longa “O Jogo da Imitação” narra a história de Alan Turing, um jovem matemático chamado para fazer parte de uma equipe de cientistas, o grupo GC&CS, para desvendar um código utilizado pelos alemães para enviar mensagens aos seus submarinos. O grupo era um braço da inteligência britânica destinado a decodificação de mensagens e o objetivo era efetuar a criptoanálise da Máquina Enigma, cujos códigos mudavam diariamente. Turing é enviado para o quartel do grupo em Bletchley Park, em 1939, para achar meios de realizar tal missão visando colocar o Reino Unido em uma posição vantajosa na Segunda Guerra Mundial. Em 1940, a partir de uma máquina decodificadora polonesa, ponto que não é demonstrado no filme, Turing consegue projetar a Bomba eletromecânica, que consegue realizar a decodificação. Posteriormente, outras máquinas similares foram construídas e, ao fim da guerra, mais de duzentas estavam operantes.

Paralelamente, o filme nos mostra parte da vida pessoal do matemático, que foi julgado em 1952 por praticar atos indecentes, uma vez que a homossexualidade era probida na Inglaterra, nesse período. Ele foi condenado e forçado a afastar-se de seu trabalho, passando por um “tratamento” à base de estrógeno, um hormônio feminino, que consistia em uma forma de castração química. Aos 41 anos, em 1954, Turing foi encontrado morto em sua casa, envenenado por cianeto. Muito especulou-se sobre a morte do cientista e, em 2009, o primeiro-ministro britânico desculpou-se publicamente pelo tratamento dado a Turing no pós-guerra e, em 2013, a rainha Elizabeth II concedeu o perdão real ao cientista e inocentou-o de sua acusação prévia.

Novembro de 2020

“- Quando acabar a guerra, as tropas estrangeiras entrarão. Pessoas nos apontarão dizendo que não fizemos nada contra Hitler. [...]
- Por que é que uma garota como você se arrisca por essas ideias errôneas?
- Pela minha consciência. [...] Nacional Socialismo em nome da liberdade e da honra. Ensanguentado a Europa. Não vê?”

(Sophie Scholl em diálogo com Robert Mohr)

No filme “Uma mulher contra Hitler”, do original “Sophie Scholl: die Letzten Tage” (Sophie Scholl: os últimos dias), acompanhamos a trajetória da jovem integrante do grupo de resistência ao nazismo Rosa Branca em sua última ação contrária ao regime em vigor. Em 18 de fevereiro de 1943, os irmãos Sophie e Hans Scholl foram à Universidade de Munique, onde estudavam, para distribuir panfletos que pregavam ideais de resistência ao nazismo, com ferrenhas críticas ao governo de Hitler. Foram colocados panfletos nas portas das salas e Sophie jogou os panfletos do segundo andar da universidade, inundando o hall principal com os papéis. Entretanto, um homem os delata e ambos são presos pela Gestapo no mesmo dia da ação. O que se segue é a perseguição aos demais membros do grupo, começando por Christoph Probst. O que acompanhamos no filme é o breve intervalo entre a prisão do trio, o seu julgamento e a condenação em 22 de fevereiro do mesmo ano.

A narrativa do longa indicado ao prêmio de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar de 2006 nos lembra sobre a dificuldade de resistir a um regime totalitário como o nazismo. Não apenas Sophie, Hans e Christoph foram condenados à morte: os demais membros principais da Rosa Branca, Alexander Schmorell, Willi Graf e Kurt Huber foram igualmente condenados. É extremamente simbólico que a pena tenha sido cumprida por meio da decapitação, uma vez que todos os resistentes eram alemães, com certificação de sua ascendência germânica. Isso tornou o ato de resistir mais grave aos olhos do regime, pois eles deveriam estar ajudando a construí-lo, e não destruí-lo. Decapitar os jovens era o mesmo que demonstrar que, com o comprometimento das suas ideias, suas mentes não serviam mais.

“Eu sou um humilde sociólogo. Eu não tenho habilidades proféticas aqui. Eu nunca aprendi nenhuma metodologia de profecia em meus 61 anos fazendo sociologia. Então, eu não sei como isso afinal vai se desenvolver. Eu só posso lhe dizer quais são os perigos, hoje, para a democracia. Um se refere a quais são as dimensões do divórcio entre o poder e a política”

(Zygmunt Bauman em “Diálogos”)

Em 2011, o sociólogo Zygmunt Bauman concedeu uma entrevista ao Projeto Fronteiras do Pensamento, na qual abordou inúmeras temáticas que perpassam a sua obra. Bauman reflete sobre a condição social no mundo pós-moderno, a fragmentação da vida humana e a redefinição das identidades. As problematizações feitas pelo sociólogo mostram a necessidade latente de pensar o mundo como uma unidade, na qual as interconexões entre os mais diversos Estados Nação afetam e limitam a vida de seus habitantes. Os Estados, segundo ele, não são capazes de manter as suas promessas em relação à democracia, que passou a ser questionada como forma de governo na atualidade. O perigo para a democracia vem não da esfera pública, mas sim da privada, que invade a Ágora e coloca em questão os assuntos comunitários.

Outro ponto abordado por Bauman é a famosa liquidez das relações humanas no mundo pós-moderno, no qual existimos como indivíduos e muitas vezes nos encontramos solitários em meio à multidão. Hoje, possuímos inúmeras redes, mas isso é muito diferente de pertencer a uma comunidade que nos precede. A diferença fundamental reside na facilidade de nos desconectarmos. Para finalizar, ao ser questionado sobre a felicidade, Bauman cita Sócrates e diz que ele foi feliz pois construiu à sua maneira a forma como viveu, e que seria possível dar uma receita infalível para isso. Para o sociólogo, pode-se dizer que há um mundo perfeito feito especialmente para cada ser humano, e é aí onde poderemos encontrar a felicidade.

➡️  A entrevista de Bauman está disponível no canal do Youtube do @fronteirasweb e também no site do projeto sob o título "Diálogos com Zygmunt Bauman".

Dezembro de 2020

“Defenderemos a nossa ilha, custe o que custar. Lutaremos nas praias. Lutaremos nos terrenos de desembarque e nas ruas. Lutaremos nas colinas; nunca nos renderemos. E mesmo que esta ilha, ou uma grande porção dela fosse subjugada e passasse fome, então nosso Império de além-mar, armado e guardado pela Frota Britânica, prosseguiria com a luta, até que, na boa hora de Deus, o Novo Mundo, com toda a sua força e poder, dê um passo em frente para o resgate e libertação do Velho”

(Tommy, em “Dunkirk”, 2017)

Dirigido por Christopher Nolan, o longa “Dunkirk” traz uma história narrada em três planos sobre a Operação Dínamo, que ficou conhecida como o milagre de Dunquerque. Em terra firme, os soldados Tommy, Gibson e Alex, em meio a outros tantos homens, reúnem-se na praia de Dunquerque para deixar o local. Paralelamente, o comandante Bolton e o coronel Winnant debatem a melhor forma de contornar a situação: eles estavam em território inimigo, sem recursos ou assistência. A ajuda vem do mar: a Marinha Real britânica havia requisitado que barcos civis fossem à Dunquerque para auxiliar no resgate dos homens. A evacuação, entretanto, ocorreu sob forte artilharia: no céu, acompanhamos os pilotos Farrier e Collins, que buscam abater aviões da força aérea alemã.

O milagre de Dunquerque foi uma das maiores retiradas militares da história. O deslocamento de tropas para o porto foi massivo: havia tropas britânicas, francesas e belgas em uma frente de 250 km próxima ao Canal da Mancha, resultando em cerca de 390 mil homens. Nessa frente, os homens se deslocaram até a praia para realizarem a evacuação. Cerca de 340 mil homens foram resgatados na operação. A citação do post foi retirada do final do filme, quando Tommy faz referência ao emblemático discurso de Winston Churchill, então ministro britânico, comumente denominado “We Shall Fight on the Beaches” (“Lutaremos nas praias”), realizado concomitantemente à ocupação da França pela Alemanha Nazista. Churchill pretendia acenar para uma futura vitória aliada, “independentemente de quão longo e difícil o caminho possa ser“.

“Querida Kitty, é totalmente impossível para mim construir a minha vida sobre uma base de caos, sofrimento e morte. Vejo o mundo se transformando aos poucos em deserto. Ouço, se aproximando, o trovão que um dia nos destruirá também. Sinto o sofrimento de milhões. E, mesmo assim, quando olho para o céu, acho que, de algum modo, tudo vai mudar para melhor, que esta crueldade também vai acabar, que a paz e a tranquilidade voltarão mais uma vez. Enquanto isso, devo manter meus ideais. Talvez chegue o dia em que eu possa realizá-los. Atenciosamente, Anne Marie Frank”

Com a leitura dessas palavras escritas por Anne Frank no sábado, 15 de julho de 1944, o documentário “Anne Frank: Vidas Paralelas” se inicia. Na voz da atriz Helen Mirren, os registros da garota que se tornou símbolo dos horrores do Holocausto ganham vida, enquanto acompanhamos paralelamente, tanto a trajetória da jovem Katarina em busca da compreensão da experiência de vida de Anne, quanto o relato de cinco sobreviventes do assassinato em massa perpetrado pelos nazistas.

 

Do Centro de Documentação Bergen-Belsen, local que reúne os registros do campo onde Anne e sua irmã Margot ficaram presas na Alemanha, até a Casa de Anne Frank, esconderijo da família Frank em Amsterdã, acompanhamos a viagem de Katarina pela história de Anne e das cinco sobreviventes Helga, Andra, Tatiana, Sarah e Adrianna. Como o documentário nos mostra, “elas são vidas paralelas, que nunca se cruzam, mas estão tão próximas que quase se tocam”. A partir dos relatos das sobreviventes e do diário de Anne somos convidados a refletir sobre a importância da memória, da empatia e do compromisso com o estudo desse acontecimento tão nefasto. Como elas dizem, ainda não aprendemos o bastante com ele: os movimentos neonazistas e fascistas nos mostram isso. Portanto, é necessário seguir buscando conhecimento e resistindo por todas e todos, por quem sobreviveu e por quem foi vítima da máquina de extermínio.

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