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Fevereiro de 2020

É com muito prazer que viemos divulgar uma nova iniciativa do NEPAT nas redes sociais! Semanalmente, próximo aos finais de semana (pra ninguém ter desculpa de não assistir!), faremos indicações de filmes, documentários e séries que se relacionem aos temas centrais estudados pelo núcleo: nazismo, autoritarismo e totalitarismo, século XX e afins. Esperamos que gostem! Sugestões de produções para indicarmos nas próximas semanas são muito bem-vindas 🖤

"- Parecia como um mundo completamente estranho? Quero dizer, como um outro mundo?
- Aquilo não era um mundo. Não havia humanidade"

(Jan Karski, professor universitário e antigo entregador do governo polonês no exílio)

Nesta semana, nossa indicação é o clássico documentário Shoah. Dirigido por Claude Lanzmann, a obra cinematográfica de 1985 tem cerca de nove horas e meia de duração. Lanzmann orienta a produção a partir de entrevistas com sobreviventes, testemunhas e até mesmo perpetradores dos horrores do holocausto. O diretor opta por não utilizar nenhuma filmagem do período da guerra, em uma estratégia bem-sucedida de carregar toda a tragédia e os terrores da experiência totalitária nazista a partir da narrativa de seus entrevistados. Embora a abordagem do diretor seja controversa e alvo de vastas críticas, consideramos este um documentário importante na percepção, a partir da memória e da oralidade, de um dos momentos mais traumáticos do século XX. Devido a longa duração, é comum dividir o filme em quatro partes: a primeira, com 2 horas e 27 minutos; a parte 2, com 1 hora e 54 minutos; a terceira parte, com 2 horas e 20 minutos e finalmente a quarta parte, com a mesma duração. Um bom filme a todas!

"Você não é um nazista, Jojo. Você é um menino de dez anos de idade que gosta deusar um uniforme engraçado e quer fazer parte de um clube"

(Elsa Korr)

A indicação desta semana é Jojo Rabbit, comédia vencedora do Oscar em 2020na categoria de Melhor Roteiro Adaptado e que tem acumulado uma série de prêmiosdesde seu lançamento em fevereiro deste ano. O filme, dirigido por Taika Waititi, é uma adaptação do romance “Caging Skies”, de Christine Leunens.
A trama acompanha o jovem Johannes Betzler (Roman Griffin Davis), Jojo, quevive na Alemanha nazista e tem por amigo imaginário o próprio Hitler (curiosamenteinterpretado por Taika). Ao ter que se afastar dos afazeres militares da Juventude Hitlerista e passar mais tempo em casa, Jojo descobre que sua mãe, Rosie (ScarlettJohansson), ajuda a esconder a judia Elsa (Thomasin McKenzie) no quarto de suafalecida irmã. A descoberta coloca em cheque toda a sua visão de mundo e as certezasque tinha até então sobre os judeus, os nazistas e seu grande ídolo, Hitler.

Ao tratar sobo viés do humor escrachado e da sátira caricata um tema tão sensível, Waititi expõe osabsurdos da sociedade nazista e nos faz questionar sobre o papel da ideologia e da doutrinação, elementos imprescindíveis na construção totalitária, ao mostrar como o Jojo, de apenas dez anos, é absolutamente fascinado pelo regime e seu líder, a pontode ser ele o seu refúgio em diversos momentos da narrativa. O tom alegre da comédiatorna-se menos adocicado à medida que o protagonista começa a perceber astragédias e injustiças do mundo em guerra ao seu redor, e as visitas do Hitler do faz-de-conta são menos frequentes e bem-humoradas.

Ao fim, desponta um incômodo questionamento: será possível rir do nazismo? Embora não tenhamos a resposta, aforma elucidada elaborada por Waititi, que não tem por fim o humor em si, mas sim areflexão crítica acerca do assunto, nos faz crer em uma conclusão afirmativa para apergunta. 

“Quem quer que tenha estado nestas trincheiras tanto tempo quanto a nossa infantaria, e quem quer que não tenha perdido o juízo nestes ataques infernais, deve pelo menos ter ficado insensível a muitas coisas. Quantidade demasiada de horror, quantidade excessiva do incrível foi arremessada contra nossos pobres camaradas. Para mim é inacreditável que isso possa ser tolerado”

(Hugo Steinthal, em “A Sagração da Primavera”, de Modris Eksteins)

Vencedor de três Oscars e de um Globo de Ouro de Melhor Filme Dramático, esta semana indicamos o longa metragem 1917, dirigido por Sam Mendes.
Ambientado nas trincheiras típicas da Primeira Guerra Mundial, Blake (Dean-Charles Chapman) e Schofield (George MacKay), soldados britânicos, recebem a missão de enviar uma mensagem ao batalhão de Devon, a qual preveniria a investida de mais de mil soldados em uma armadilha que os levaria à morte. Contudo, para chegar até lá, seria necessário atravessar o campo inimigo e as “terras de ninguém”. Ao longo desta perigosa jornada, são escancarados os efeitos devastadores de uma Guerra Total, conceito moderno cunhado para explicar um conflito onde mobiliza-se todos os esforços humanos (militares e civis), econômicos, tecnológicos e afins em prol da guerra. Não são raros os cadáveres encontrados pela dupla, bem como casas abandonadas e uma pequena família escondida em escombros.


A produção conta um embasamento histórico acurado, a exemplo da “armadilha” que motiva a mensagem a ser entregue: trata-se da Operação Alberich, de iniciativa da Alemanha, ocorrida entre 09/02 e 20/03 de 1917. Todavia, a ideia de soldados mensageiros foi baseada na história do avô do diretor, Alfred Mendes, que lutou pelo exército britânico e contava ao neto sobre suas desventuras ao entregar mensagens entre trincheiras. Além disso, o filme utiliza da filmagem em plano-sequência, o que faz parecer que tudo faz parte de um único take.

“Como nós sabemos que o Holocausto aconteceu? Como provamos? Evidência fotográfica? Nenhuma pessoa nesta sala ou fora dela já viu a imagem de um judeu dentro de uma câmara de gás. Vocês sabem por quê? Porque os alemães garantiram que nenhuma jamais fosse tirada. Então o que nós sabemos? Como nós sabemos que tantos foram assassinados? Qual é a prova? Onde está a prova? Quão forte ela é?”

(Deborah Lipstadt )

O descrédito e a negação por narrativas históricas e científicas há muito consolidadas infelizmente é cada vez mais recorrente, dentro e fora dos circuitos acadêmicos. O nazismo, assim como a esfericidade da Terra, a eficácia das vacinas e as cicatrizes da escravidão, não passa impune a manipulações e distorções. Há quem diga que ele é de esquerda, há quem diga que sequer ocorreu. É o caso do britânico David Irving, que na década de 90 processou a historiadora estadunidense Deborah Lipstadt por ser mencionado na obra “Negando o Holocausto: O Crescente Ataque à Verdade e à Memória”. Brevemente, ela o acusa de interpretar de forma equivocada a documentação que o levou à base central de sua tese: de que as câmaras de gás jamais mataram sequer um judeu. Coube ao tribunal, então, julgar muito mais que um caso de difamação: estava em prova a própria existência do Holocausto. A história real deste julgamento inspirou o roteiro de “Negação”, drama de 2016 dirigido por Mick Jackson, nossa indicação de filme da semana.


O julgamento, que só teve sentença final em 2001, inflamou ainda mais a constatação de como a História, em seu fazer, está vulnerável a manipulações retóricas e deturpações documentais. A violência simbólica que é viver às sombras de uma história parcialmente ou nada verdadeira não diz respeito apenas ao historiador: influi profundamente na conformação de cada indivíduo como cidadão e é um excelente indicativo social. Em tempos perigosos de “assassinos da memória”, como sugere Pierre Vidal-Naquet, esperamos que “Negação” inspire boas reflexões. Qualquer semelhança com o Brasil de Bolsonaro não é mera coincidência. Bom filme!

Março de 2020

“O problema com Eichmann era exatamente que muitos eram como ele, e muitos não eram nem pervertidos, nem sádicos, mas eram e ainda são terrível e assustadoramente normais.”

(Hannah Arendt)

Nesta semana, nossa indicação é “Hannah Arendt - Ideias Que Chocaram o Mundo”. Dirigido por Margarethe von Trotta, o filme de 2012 acompanha o percurso da filósofa e teórica política Hannah Arendt (Barbara Sukowa) durante a cobertura do processo movido em Jerusalém contra o nazista Adolf Eichmann, que durante o Terceiro Reich era encarregado da logística que transportava milhares de judeus todos os dias aos campos de concentração.

Em 1961, a pensadora trabalhou como correspondente da revista The New Yorker e viajou a Israel para assistir presencialmente um dos julgamentos mais relevantes desde Nuremberg. As expectativas eram muitas, mas as inquietações de Arendt tomaram um rumo distinto do que se discutia até então entre intelectuais e a grande mídia: ao se deparar com um Eichmann enjaulado, esperava encontrar algo mais próximo de um monstro do que de um homem terrivelmente comum e que em nada se destacaria em uma multidão, que foi o que viu. Surge, assim, o que a filósofa chamou de Banalidade do Mal, teoria construída em busca da compreensão de como a inversão da moral e a ausência de pensamento e julgamento críticos podem fazer com que o mais medíocre dos indivíduos cometa um crime das proporções dos de Eichmann, sem jamais se considerar culpado.

Trotta, ao construir a narrativa de forma a demonstrar todas as dificuldades e críticas enfrentadas por Hannah Arendt na época, entrega um retrato biográfico muito relevante para a percepção do pensamento intelectual e uma excelente introdução ao pensamento arendtiano, que, à sua — brilhante — maneira, chocaram e chocam o mundo.

Caso o filme desperte mais interesse, não deixe de ler “Eichmann em Jerusalém, um relato sobre a Banalidade do Mal”, que contém o ensaio de Arendt para a The New Yorker. Desejamos a todas e todos um excelente filme e boas reflexões!

"Em termos morais, minhas ações me tornam culpado. Me apresento perante as vítimas com remordimento e humildade. Sobre minha responsabilidade a nível legal, vocês devem decidir"

(Oscar Gröning)

A indicação de hoje é o documentário “O Contador de Auschwitz”. Dirigido por Matthew Schoychet, a produção acompanha o julgamento de Oscar Gröning, ex membro da SS, em Lünemburg no ano de 2015, sete décadas após o fim da Segunda Guerra Mundial. O homem, já em idade avançada, foi julgado como cúmplice no assassinato de 300 mil prisioneiros em Auschwitz, mas alega jamais ter encostado em uma arma. Gröning era responsável por receber e encaminhar os pertences (dinheiro, roupas, jóias e tudo que fosse de valor) daqueles que chegavam no campo de extermínio, recebendo pela mídia o apelido “contador de Auschwitz”. O julgamento tardio do Contador só foi possível em vista do precedente aberto em 2011, quando John Demjanjuk, guarda do campo de Sobibor, foi condenado a cinco anos como cúmplice das mortes ocorridas onde trabalhava. Houve, então, uma determinação legal que concluía o que cientistas políticos e filósofos já debatiam intensamente: era preciso considerar cúmplices dos crimes nazistas aqueles que, mesmo sem terem participado diretamente do extermínio, operaram como colaboradores de alguma forma. O debate sobre culpa e responsabilidade, fomentado, por exemplo, por Karl Jaspers e Hannah Arendt, foram reavivados no século seguinte, para justificar uma nova temporada de “caça” aos nazistas remanescentes.

Qual a pertinência de condenar homens e mulheres em seus mais de 90 anos? Qual a mensagem ainda muito necessária a ser transmitida sobre este crime contra a humanidade que não se consolidou com o julgamento dos nazistas de grande escalão, como em Nuremberg? Como as categorias de culpa e responsabilidade iluminam nossa compreensão acerca da participação em regimes autoritários e totalitários? Esperamos que o documentário inspire boas reflexões e estimule o interesse em encontrar respostas a essas questões. Bom filme!

“Nunca vou viver em paz com o meu pai. Porque não posso, jamais, perdoar o que ele fez. Todas estas imagens estão vivas em minha mente. São crimes horríveis. Não posso viver em paz com a lembrança do meu pai. Não quero. Porque encontrar a paz é encontrar uma maneira de perdoá-lo. E não posso perdoá-lo”.

(Niklas Frank)

Hans Frank foi Governador Geral da Polônia durante a ocupação nazista e ficou conhecido como “o açougueiro da Polônia”. Na região que estava sob seu comando, operavam os campos de Sobibor e Treblinka e estima-se que 2,77 milhões de poloneses e 2,9 milhões de judeus morreram em seus domínios. Em 16 de outubro de 1946 foi enforcado por crimes contra a humanidade.

Otto von Wächter foi governador do distrito da Cracóvia e posteriormente do distrito da Galícia na ocupação nazista. Cerca de cem mil pessoas foram assassinadas sob seu governo. Nunca foi julgado e morreu de causas naturais em 1949.
Na indicação desta semana, o documentário “What Our Fathers Did - A Nazi Legacy” acompanha a história de três homens: Philippe Sands, advogado cuja família foi assassinada durante o Holocausto; Niklas Frank e Horst von Wätcher, filhos de Hans Frank e Otto von Wätcher, respectivamente.

O diretor David Evans nos apresenta o questionamento: “Imagine como deve ser crescer sendo filho de um assassino em massa?”. As ramificações dessa vivência, focadas no reconhecimento de seus respectivos pais enquanto genocidas, gera debates profundos e discordâncias incômodas. O filho do Açougueiro da Polônia jamais perdoou seu progenitor. Já o filho do homem que massacrou a Cracóvia guarda tenras memórias do pai. Surge em quem assiste um desconforto: como é possível que Wätcher consiga discernir o caráter de Horst da sua participação em um dos maiores assassinatos em massa da História? A dificuldade de encontrar os carrascos entre aqueles que amamos tornam-se feridas expostas que colocam em xeque a própria natureza humana ao longo do documentário.

Convidamos todos para essa jornada que confronta as crenças sobre culpa e responsabilidade e, incrivelmente, o amor paterno. Bom filme!

“As pessoas recusavam-se a acreditar nos fatos gritantes diante dos seus olhos. Não que fossem obtusas ou tivessem má vontade. Apenas, nada do que tinham visto antes as havia preparado para acreditar. Por tudo o que conheciam e acreditavam, o assassinato em massa para o qual ainda nem tinham nome era pura e simplesmente inimaginável. Em 1988, é de novo inimaginável. Mas em 1988 sabemos o que não sabíamos em 1941: ​que também o inimaginável deve ser imaginado”

(Zygmunt Bauman, "Modernidade e Holocausto")

Imagine-se andando por Berlim, quando em um terreno baldio você dá de cara com ninguém menos que Adolf Hitler. E não em uma Berlim dos anos 40, mas em uma sob a globalização e dinamicidade do século XXI. Pois justamente essa é a premissa do filme “Ele Está de Volta” (Er ist wieder da), adaptação cinematográfica do livro homônimo de Timur Wermes, publicado em 2012 na Alemanha; e nossa indicação da semana. O filme, dirigido pelo alemão David Wnendt, mistura ficção e documentário buscando refletir como as sociedades, as instituições e, sobretudo, os indivíduos de nosso século recepcionariam a figura central do regime nazista.

Como o vencedor de Oscar “Jojo Rabbit” (2019), a obra de Wnendt contém um humor sátiro e escrachado, com um adicional intrigante: pelo seu caráter documental, há cenas de Hitler (Oliver Masucci) interagindo com pessoas anônimas e não contratadas, que ao contrário do que se pode pensar, têm reações bem diferentes à repulsa ou ao receio de falar (ou até rir?) com o personagem. O humor caminha a passos sombrios para um final aterrador, que faz valer toda a trama.
A produção expõe as inegáveis brechas existentes em nossa contemporaneidade para que possamos compreender, à luz do que sugere Bauman, que a ideologia nazista e as correntes subterrâneas de movimentos totalitários estão longe de serem esquecidos e que urge a necessidade de “imaginarmos o inimaginável”. Essa batalha, há muito dada por vencida, talvez ainda tenha o potencial de ruir as democracias como conhecemos hoje.
Esperamos que o filme traga boas reflexões!

Abril de 2020

“São culpados moralmente os seres capazes de expiação, aqueles que sabiam ou que podiam saber, e que apesar disso tomaram caminhos que sabiam errados, quando fazem um exame de consciência. Por comodidade, dissimularam a si mesmos o que se passava; ou se deixaram aturdir e seduzir; ou se deixaram comprar com vantagens pessoais; ou então obedeceram por medo”

(Karl Jaspers, "A questão da culpa")

Indicado a 5 premiações do Oscar em 2009, a adaptação do livro de Bernhard Schlink “O Leitor” é nossa recomendação da semana.
Na Alemanha do Pós-Guerra de 1958, o jovem Michael Berg (David Kross e Ralph Fiennes) subitamente adoece em razão da febre escarlatina. É uma mulher desconhecida que o socorre enquanto ele tem um mal-estar nas ruas de Neustadt. Despretensiosamente, inicia-se assim a ligação entre Hanna Schmitz (Kate Winslet) e Michael. O que começou com uma enfermidade, caminha a passos rápidos rumo a um amor tórrido, ainda que o protagonista tenha apenas 15 anos e Hanna tenha 30.

Ao passar dias a fio na modesta casa de sua amante, Michael, entre uma e outra aventura sexual, lê diversas obras literárias para a mulher. Esse hábito consolida a relação entre eles, e suas visitas a Hanna passam a compor papel central na vida do adolescente. Entretanto, tão subitamente quanto surgiu, ela desapareceu, sem deixar a ele nenhum sinal. O filme evoca importantes questões sobre o que propõe Karl Jaspers em seu livro “A questão da culpa: A Alemanha e o Nazismo” sobre a culpa e responsabilidade dos perpetradores do Holocausto. Ainda, nos faz refletir sobre a monstruosidade, sempre tão caricata em Hollywood (todos se lembram dos nazistas avultados de A Lista de Schindler), em contraste aos nazistas da vida real. Eram todos monstros? Não seriam compostos, em sua grande maioria, por pessoas banais, como eu, você nossos amigos? E isso faz deles menos culpados e responsáveis em alguma medida?

A produção de Stephen Daldry apresenta uma história absolutamente envolvente e que coloca em xeque a própria natureza humana, o perdão e as feridas, jamais cicatrizadas, de um dos maiores massacres do séc XX. Não percam!

“Ninguém vai crer se não puder ver”

(Francesc Boix)

Baseado no livro “El fotógrafo del horror, La historia de Francesc Boix y las fotos robadas a los SS de Mauthausen”, do historiador Benito Bermeja; o filme "O Fotógrafo de Mauthausen" nos acompanha pelo campo de Mauthausen, através da jornada de Francesc Boix (Mario Casas). Combatente do Exército Republicano durante a Guerra Civil Espanhola, Francesc teve sua nacionalidade negada e, juntamente a milhares de compatriotas, foi abandonado ao jugo dos nazistas na Áustria. Boix tinha experiência com fotografia, o que foi suficiente para que recebesse o cargo de fotógrafo do campo.

Ao exercer sua função, Francesc presenciou espetáculos sádicos de tortura, massacre de inocentes e falsificações de cenas de assassinato de prisioneiros do campo. Contudo, foi apenas quando os oficiais nazistas ordenaram a destruição das fotos que registravam os horrores contidos em Mauthausen que ele se mobilizou, juntamente a antigos colegas do Partido Comunista, na tentativa de esconder alguns negativos das imagens que poderiam incriminar os nazistas ao fim da guerra.

Dirigido por Mar Targarona, o filme, baseado em acontecimentos históricos, embora dramatizado, nos mostra uma nova perspectiva de um campo nazista destinado ao trabalho forçado de intelectuais e membros da elite cultural de países ocupados. Cerca de 100 mil pessoas morreram em Mauthausen e, graças a Boix e amigos resistentes, há provas disso. Além disso, Francesc esteve presente como testemunha da acusação nos Julgamentos de Nuremberg, em 1946, nos quais ajudou a identificar os nazistas atuantes no campo, além de relatar o extermínio de prisioneiros de guerra soviéticos. Não deixem de conhecer a história do “homem que ajudou a provar o Holocausto”! Tem na Netflix! 😉

“Talvez esta entrevista tenha sido meu último papel”

(Lída Baarová)

Nossa indicação da semana é Lída Baarová, filme biográfico de 2016 que narra a história da atriz tcheca de mesmo nome, um grande expoente cinematográfico na década de 30. Ainda jovem, Lída protagonizou sucessos de bilheteria como “Barcarole”, ao lado de Gustav Fröhlich (no filme, Gedeon Burkhard), e conquistou seu lugar como estrela dos filmes alemães. Interpretada por Tatiana Pauhofová, a vida da atriz é exposta na representação de um dos capítulos pouco revisitados da trajetória nazista.

Embora sua participação nas telas dos cinemas tenha sido significante, Lída foi perpetuada enquanto amante de um dos arquitetos no regime nacional-socialista: Joseph Goebbels, Ministro da Propaganda na Alemanha Nazista entre 1933 e 1945, encenado por Karl Markovics. O tórrido relacionamento extraconjugal, não raro para Goebbels, foi o começo do fim derradeiro na carreira de Baarová. Ela, que inúmeras vezes fora convidada para contracenar em produções Hollywoodianas, optou pelos jogos de poder que brincava com o Ministro, e manteve-se completamente indiferente aos crimes cometidos por seu amante.

Dirigido por Filip Renc, a produção independente carrega algumas representações controversas e criticáveis dos nazistas e da organização de seu regime. Embora muitas vezes dramatizado de forma quase caricatural, a obra é relevante por trazer à tona a vida tão pouco contada da atriz tcheca que, por consequência de suas escolhas, morreu no anonimato. O enredo desenvolve-se no formato de uma entrevista feita a Lída, já idosa, vivida por Zdenka Procházková, e que dá a impressão de não reconsiderar as decisões que a levaram a amar um genocida.

Nesse sentido, ainda que não tenha sido realizado de forma exímia, o filme nos permite refletir sobre o papel de Lída enquanto colaboradora ativa do regime nazista, em detrimento de suas tentativas de manter-se alheia aos crimes perpetrados pelo governo que a financiava; e que o amor (especialmente aquele alimentado pela sede de poder) não justifica ou ameniza em nada as decisões de sua decadente vida.

"- Tem a chance de fazer história e está dando as costas a isso?
- As pessoas me veem como exemplo.
- Eu não ligo a mínima para isso.
- Você é branco, Larry. Não precisa ligar"

(Jesse Owens)

Em 1936, Berlim sediou os Jogos da XI Olimpíada. No auge de seu governo, Hitler e seus aliados esperavam que isso poderia funcionar como uma ferramenta de propaganda tanto da estética nazista, como um demonstrativo da superioridade da raça ariana. O gigantesco Estádio Olímpico de Berlim foi construído para os Jogos, e a cineasta Leni Riefenstahl foi convidada a registrar o evento, o que gerou o famoso “Olympia”, filme de propaganda do regime e que lançou tendências cinematográficas para a posteridade. Além disso, uma série de medidas foi tomada para preservar a imagem alemã: cartazes antissemitas foram removidos, periódicos de mesmo caráter saíram de circulação, e as Estrelas de Davi usadas para identificar os judeus foram ocultadas. Toda uma manipulação da realidade foi executada para promover a imagem desejada do Terceiro Reich.
Entretanto, uma das situações mais marcantes da Olimpíada nazista caminhou em direção contrária aos interesses do Führer. James Cleveland Owens, conhecido como Jesse Owens, diante de uma Alemanha nazificada, conquistou quatro medalhas de ouro, o primeiro atleta a receber tantas medalhas em uma só Olimpíada. Enquanto homem negro, Owens garantiu à História a chance de desbancar a ideia de superioridade racial nazista e melhor ainda, na frente deles. Nossa indicação desta semana, o filme Raça, dramatiza sua participação célebre nos jogos de 36.

Dirigido por Stephen Hopkins, a produção de 2016 acompanha o percurso durante os 3 anos de preparação do atleta, interpretado por Sthepan James, e sua trajetória profundamente marcada pelo racismo. O filme é bem-sucedido ao demonstrar claramente o teto de vidro dos norte-americanos ao repudiar a política segregatória nazista ao passo que marginalizava a parcela não-branca de sua população. Não perca a chance de conhecer a história fenomenal de Owens, evidenciada pela excelência enquanto atleta e complexificada em razão da discriminação social. 

Maio de 2020

“John Demjanjuk poderia ter sido um monstro ou uma vítima de uma identificação errada. Meu maior medo é que ele poderia ter sido qualquer um”

(Eli Rosenbaum)

Quão solidificada está a narrativa dos sobreviventes do Holocausto? Ainda é necessário “caçar” os nazistas? Estas são algumas das perguntas que surgem na série documental de 2019 da Netflix “O Monstro ao Lado” e nossa indicação da semana.

A série de 5 episódios relata a trajetória do caso de John Demjanjuk, um aposentado residente de Cleveland, nos Estados Unidos, acusado de ser o guarda do campo de extermínio nazista de Sobibor conhecido como “Ivan o Terrível”. Demjanjuk foi preso, desnaturalizado estadunidense e extraditado para ser julgado em Israel em 1986. Após a confirmação da identidade a partir de uma foto e do testemunho de diversos sobreviventes, o homem de 66 anos foi considerado culpado e condenado a morte, mas teve a sentença revogada por outra documentação que levantava dúvidas acerca de sua identidade.
Os episódios exploram as complexidades do processo e as reviravoltas que culminaram com sua morte na prisão em 2012, aos 91 anos, enquanto seu caso ainda não estava finalizado. Ao entrevistar membros de sua família, advogados de acusação e defesa, sobreviventes do Holocausto, acadêmicos e jornalistas, a série não deixa dúvidas sobre a violência e sadismo de Ivan o Terrível, mas deixa pairando no ar se Demjanjuk era, de fato, este homem.

O caso de Demjanjuk nos mostra como os julgamentos de criminosos nazistas, apesar de fundamentais para a construção da memória coletiva e para a solidificação dos direitos humanos e das democracias, necessitam de amparo jurídico forte o suficiente para que esses objetivos sejam atingidos – caso contrário, o tiro pode sair pela culatra. O caso faz parte de uma série de julgamentos cuja narrativa não nos parece tão diferente da primeira, em Nuremberg em 1945, e tampouco da de Eichmann em 1961 ou, mais recente, de Oskar Gröning, em 2015. Nota-se que, até os dias atuais, a narrativa sobre o Terceiro Reich ainda não é totalmente linear. Esperamos que a série traga bons questionamentos!

“Do ponto de vista do racismo, não existe exterior, não existem as pessoas de fora. Só existem pessoas que deveriam ser como nós, e cujo crime é não o serem.”

(Deleuze e Guatarri)

Vencedor do Oscar como curta metragem em 2018, e lançado como longa metragem em 2019, o filme “Skin - À Flor da Pele” narra a história verídica de Bryon Widner (Jamie Bell), famoso supremacista branco dos Estados Unidos. Conhecido por ser um dos fundadores do Vinlanders Social Club, grupo de skinheads atuante no Arizona, a história do filme é a surpreendente jornada de seu arrependimento e sua transformação - física, ideológica e espiritual.

Repleto de tatuagens de teor neonazista, muitas em seu rosto, o título da obra encontra significado quando elas são progressivamente apagadas de seu corpo, à medida em que Bryon começa a questionar a veracidade da realidade que o cercava. Com o suporte de Daryle Lamont Jenkins (Mike Colter), ativista fundador do grupo antirracista One People’s Problem, Bryon conseguiu sair do Vinlanders, não sem antes denunciá-lo ao FBI e garantir que importantes líderes fossem presos. Graças a uma doação anônima, Widner conseguiu remover, ao longo de dois anos, todas as tatuagens de seu rosto. Hoje, está se graduando em Psicologia Criminal e palestra constantemente sobre tolerância e combate aos discursos de ódio.

A produção do israelense Guy Nattiv invoca importantes questões para nós. Em um roteiro carregado de tensão, são escancarados lados viscerais do nacionalismo norte-americano, em sua forma de supremacia branca. O já conhecido fascismo, que se adaptou para odiar agora a população negra, muçulmana, imigrante e LGBT, é exposto ao nos mostrar a organização e ideologia deste grupo, ainda atuante em 2020. As correntes subterrâneas do resgate ao nazismo já estão lançadas. O filme, além de nos mostrar isso, permite um fôlego de esperança, mas não em quantidade suficiente para descansarmos. Como diz Maya Angelou, “A verdade é que nenhum de nós pode ser livre até que todos estejam livres.” Não há liberdade, mesmo na pátria que tanto invoca esse valor, enquanto ainda exista quem acredite que ela pertence apenas a alguns.

“Não é um indivíduo que está no banco de réus neste processo histórico, não é apenas o regime nazista, mas o antissemitismo ao longo de toda uma história”

(David Ben Gurion, ex-Primeiro ministro de Israel)

A frase anterior simboliza bem o que significou para grande parte dos israelenses a captura de Adolf Eichmann pelo serviço de inteligência do país (Mossad) no ano de 1960, em Buenos Aires, Argentina. É justamente pela representação e pelo significado desta captura que “Operação Final” (2018), dirigido por Chris Weitz e estrelado e produzido por Oscar Isaac, é a indicação de filme desta semana. Na película, Isaac interpreta o agente da Mossad Peter Malkin, um dos responsáveis por planejar a prisão e deportação de Eichmann (Ben Kingsley), cujo sucesso levaria este a julgamento em Jerusalém um ano depois e sua consequente morte por enforcamento no ano de 1962.

Mas quem era Eichmann? E por que sua prisão era tão simbólica? Filiado à SS e ao Partido Nacional-Socialista (NSDAP) já em 1932, foi em 1934 que empregou-se particularmente em um setor primário do Serviço de Inteligência (SD) destas entidades, em que se tornaria um dos muitos responsáveis por resolver as chamadas “questões judaicas” dentro dos territórios alemães. Inclusive, tendo participação na logística de deportação, locomoção e transporte dos judeus para os campos de extermínio construídos pelos nazistas durante a Segunda Guerra. Ao fim da guerra, Eichmann se estabeleceu na Áustria até 1950, quando decidiu se assentar com a família definitivamente na Argentina sob passaportes e nomes falsos, sendo encontrado anos depois pelo serviço secreto Israelense.

O filme é interessante como retratação dos dilemas e das tensões que envolveram os agentes israelenses durante a execução da operação, além de dar um prelúdio das situações que ambientaram a sentença de Eichmann um ano após sua prisão. O julgamento, aliás, é detalhadamente relatado e analisado por Hannah Arendt no livro “Eichmann em Jerusalém” (1963), que pode servir como ótimo complemento crítico aos pontos e problemas levantados pelo filme.

“Por que os vagalumes têm que morrer tão cedo?”

(Setsuko, “Túmulo dos Vagalumes”)

Por vezes nos esquecemos que a Segunda Guerra Mundial (paradoxalmente) não se restringiu aos contornos dos países europeus, pelo contrário, batalhas e exércitos se embateram nos continentes africanos e asiáticos, além de afetar indiretamente outras partes do mundo, como o próprio Brasil. Assim, nossa indicação da semana pretende iluminar outro espaço atingido pela guerra, particularmente o Japão, através dos olhos sensíveis de uma das animações mais aclamadas do Studio Ghibli: Túmulo dos Vagalumes (1988). Empresa japonesa famosa por suas animações delicadas de variados temas políticos e sociais, esta obra dirigida por Isao Takahata acompanha a vida de dois jovens irmãos que tentam sobreviver ao fim da Segunda Guerra Mundial, sob ataques sistemáticos dos EUA.

Para quem não se lembra, mesmo após a rendição alemã diante da União Soviética e dos Aliados ocidentais no começo do mês de maio, o Japão continuou em mobilização na denominada “Guerra do Pacífico” até se render oficialmente em 2 de setembro de 1945, logo após ter sofrido o ataque nuclear estadunidense. É justamente neste período de continuidade da guerra japonesa que o filme se insere, retratando os horrores e a miséria ocasionada pelo conflito e pelas contradições que envolviam a escolha da persistência em lutar: um orgulho e perseverança de soldados e cidadãos japoneses que se desvaneciam perante as milhares de mortes e o enorme sofrimento dentro das pequenas e grandes cidades do país.

Ao fim, essa animação tocante nos traz reflexões sobre o cotidiano de guerra vivido por civis e quais as dificuldades e situações que se estendem bem mais que se esconder de ataques aéreos, tendo que enfrentar também problemas de ordem material e emocional pelo interminável e caótico ambiente ocasionado pelo conflito. Não percam! A animação está disponível no YouTube :)

“Auschwitz são as histórias que aconteceram e estão enterradas aqui. Sem o julgamento, essas histórias seguirão enterradas e esquecidas. Não importa o castigo. Importam as vítimas, suas histórias.”

(Thomas Gnielka)

Em 20 de dezembro de 1963, quase vinte anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, iniciou-se em Frankfurt o que ficou conhecido como “O Julgamento de Auschwitz”, no qual 22 homens que participaram do funcionamento do campo de extermínio nazista foram julgados e 17 deles foram condenados à prisão perpétua por assassinato. Esse é considerado um marco na história da então incipiente democracia alemã.

Labirinto de Mentiras, nossa indicação da semana, acompanha o começo das iniciativas que levaram aos julgamentos nos anos 60, através do personagem fictício Johann Radmann (Alexander Fehling), jovem procurador geral alemão em 1958. Embora não tenha existido, sua romantização abarca uma equipe de funcionários públicos (dentre eles o famoso juiz Fritz Bauer) que, na prática, conseguiram retirar o véu que encobria os crimes da era nazista e garantia impunidade àqueles que participaram do genocídio e conseguiram seguir suas vidas normalmente no pós-guerra.

Indicado ao Oscar em 2016, a produção do italiano Giulio Ricciarelli escancara a fragilidade do sistema jurídico alemão ao tentar, sem sucesso, analisar por suas normas um acontecimento tão traumático quanto o Holocausto. Além disso, o filme nos mostra como o processo de desnazificação na Alemanha também resultou em uma espécie de amnésia coletiva, em que não fazia-se útil encarar os crimes do passado.

A obra cinematográfica levanta uma série de questões importantes na compreensão do regime totalitário nazista, como culpa, responsabilidade e moral; e coloca em xeque a capacidade da sociedade, não somente a alemã, de manter intocadas as feridas abertas de sua história.

Esse filmão está disponível no Amazon Prime! Vale muito a pena assistir 😉

Junho de 2020

“Se eu soubesse que esta era uma reunião da Klan, eu não teria aceito esse maldito trabalho”

Como já mencionamos, fizemos uma parceria com o Grupo de Estudos de África Pré-Colonial da UFMG (GEAP). Uma das atividades dessa parceria será a produção de conteúdo em conjunto, então o GEAP passará a indicar aqui filmes com temáticas que perpassem nossos grupos.

A primeira indicação dessa parceria não poderia ser outra. "Infiltrado na Klan" é um filme de 2018, sob a direção de Spike Lee. A obra é uma narrativa ficcional de um caso real, em que Ron Stallworth, primeiro policial negro em Colorado Springs, se infiltra na Organização Ku Klux Klan fazendo um trabalho de investigação em 1978. Intercalando filmagens da época, cenas em estúdio e vídeos e discursos políticos atuais a narrativa do filme trata de importantes questões como antissemitismo, anticomunismo, racismo institucional e violência policial.

Com uma narrativa leve e bons alívios cômicos acompanhe Ron Stallworth (John Davis Washington) e seu parceiro Flip Zimmerman (Adam Driver) nessa importante investigação das ameaças e perigos da Ku Klux Klan e dos ideais de supremacistas brancos da década de 1970 e que perduram até hoje em muitos lugares e afetam a vida de negras e negros em todo mundo.

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