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Maio de 2020

“John Demjanjuk poderia ter sido um monstro ou uma vítima de uma identificação errada. Meu maior medo é que ele poderia ter sido qualquer um”

(Eli Rosenbaum)

Quão solidificada está a narrativa dos sobreviventes do Holocausto? Ainda é necessário “caçar” os nazistas? Estas são algumas das perguntas que surgem na série documental de 2019 da Netflix “O Monstro ao Lado” e nossa indicação da semana.

A série de 5 episódios relata a trajetória do caso de John Demjanjuk, um aposentado residente de Cleveland, nos Estados Unidos, acusado de ser o guarda do campo de extermínio nazista de Sobibor conhecido como “Ivan o Terrível”. Demjanjuk foi preso, desnaturalizado estadunidense e extraditado para ser julgado em Israel em 1986. Após a confirmação da identidade a partir de uma foto e do testemunho de diversos sobreviventes, o homem de 66 anos foi considerado culpado e condenado a morte, mas teve a sentença revogada por outra documentação que levantava dúvidas acerca de sua identidade.
Os episódios exploram as complexidades do processo e as reviravoltas que culminaram com sua morte na prisão em 2012, aos 91 anos, enquanto seu caso ainda não estava finalizado. Ao entrevistar membros de sua família, advogados de acusação e defesa, sobreviventes do Holocausto, acadêmicos e jornalistas, a série não deixa dúvidas sobre a violência e sadismo de Ivan o Terrível, mas deixa pairando no ar se Demjanjuk era, de fato, este homem.

O caso de Demjanjuk nos mostra como os julgamentos de criminosos nazistas, apesar de fundamentais para a construção da memória coletiva e para a solidificação dos direitos humanos e das democracias, necessitam de amparo jurídico forte o suficiente para que esses objetivos sejam atingidos – caso contrário, o tiro pode sair pela culatra. O caso faz parte de uma série de julgamentos cuja narrativa não nos parece tão diferente da primeira, em Nuremberg em 1945, e tampouco da de Eichmann em 1961 ou, mais recente, de Oskar Gröning, em 2015. Nota-se que, até os dias atuais, a narrativa sobre o Terceiro Reich ainda não é totalmente linear. Esperamos que a série traga bons questionamentos!

“Do ponto de vista do racismo, não existe exterior, não existem as pessoas de fora. Só existem pessoas que deveriam ser como nós, e cujo crime é não o serem.”

(Deleuze e Guatarri)

Vencedor do Oscar como curta metragem em 2018, e lançado como longa metragem em 2019, o filme “Skin - À Flor da Pele” narra a história verídica de Bryon Widner (Jamie Bell), famoso supremacista branco dos Estados Unidos. Conhecido por ser um dos fundadores do Vinlanders Social Club, grupo de skinheads atuante no Arizona, a história do filme é a surpreendente jornada de seu arrependimento e sua transformação - física, ideológica e espiritual.

Repleto de tatuagens de teor neonazista, muitas em seu rosto, o título da obra encontra significado quando elas são progressivamente apagadas de seu corpo, à medida em que Bryon começa a questionar a veracidade da realidade que o cercava. Com o suporte de Daryle Lamont Jenkins (Mike Colter), ativista fundador do grupo antirracista One People’s Problem, Bryon conseguiu sair do Vinlanders, não sem antes denunciá-lo ao FBI e garantir que importantes líderes fossem presos. Graças a uma doação anônima, Widner conseguiu remover, ao longo de dois anos, todas as tatuagens de seu rosto. Hoje, está se graduando em Psicologia Criminal e palestra constantemente sobre tolerância e combate aos discursos de ódio.

A produção do israelense Guy Nattiv invoca importantes questões para nós. Em um roteiro carregado de tensão, são escancarados lados viscerais do nacionalismo norte-americano, em sua forma de supremacia branca. O já conhecido fascismo, que se adaptou para odiar agora a população negra, muçulmana, imigrante e LGBT, é exposto ao nos mostrar a organização e ideologia deste grupo, ainda atuante em 2020. As correntes subterrâneas do resgate ao nazismo já estão lançadas. O filme, além de nos mostrar isso, permite um fôlego de esperança, mas não em quantidade suficiente para descansarmos. Como diz Maya Angelou, “A verdade é que nenhum de nós pode ser livre até que todos estejam livres.” Não há liberdade, mesmo na pátria que tanto invoca esse valor, enquanto ainda exista quem acredite que ela pertence apenas a alguns.

“Não é um indivíduo que está no banco de réus neste processo histórico, não é apenas o regime nazista, mas o antissemitismo ao longo de toda uma história”

(David Ben Gurion, ex-Primeiro ministro de Israel)

A frase anterior simboliza bem o que significou para grande parte dos israelenses a captura de Adolf Eichmann pelo serviço de inteligência do país (Mossad) no ano de 1960, em Buenos Aires, Argentina. É justamente pela representação e pelo significado desta captura que “Operação Final” (2018), dirigido por Chris Weitz e estrelado e produzido por Oscar Isaac, é a indicação de filme desta semana. Na película, Isaac interpreta o agente da Mossad Peter Malkin, um dos responsáveis por planejar a prisão e deportação de Eichmann (Ben Kingsley), cujo sucesso levaria este a julgamento em Jerusalém um ano depois e sua consequente morte por enforcamento no ano de 1962.

Mas quem era Eichmann? E por que sua prisão era tão simbólica? Filiado à SS e ao Partido Nacional-Socialista (NSDAP) já em 1932, foi em 1934 que empregou-se particularmente em um setor primário do Serviço de Inteligência (SD) destas entidades, em que se tornaria um dos muitos responsáveis por resolver as chamadas “questões judaicas” dentro dos territórios alemães. Inclusive, tendo participação na logística de deportação, locomoção e transporte dos judeus para os campos de extermínio construídos pelos nazistas durante a Segunda Guerra. Ao fim da guerra, Eichmann se estabeleceu na Áustria até 1950, quando decidiu se assentar com a família definitivamente na Argentina sob passaportes e nomes falsos, sendo encontrado anos depois pelo serviço secreto Israelense.

O filme é interessante como retratação dos dilemas e das tensões que envolveram os agentes israelenses durante a execução da operação, além de dar um prelúdio das situações que ambientaram a sentença de Eichmann um ano após sua prisão. O julgamento, aliás, é detalhadamente relatado e analisado por Hannah Arendt no livro “Eichmann em Jerusalém” (1963), que pode servir como ótimo complemento crítico aos pontos e problemas levantados pelo filme.

“Por que os vagalumes têm que morrer tão cedo?”

(Setsuko, “Túmulo dos Vagalumes”)

Por vezes nos esquecemos que a Segunda Guerra Mundial (paradoxalmente) não se restringiu aos contornos dos países europeus, pelo contrário, batalhas e exércitos se embateram nos continentes africanos e asiáticos, além de afetar indiretamente outras partes do mundo, como o próprio Brasil. Assim, nossa indicação da semana pretende iluminar outro espaço atingido pela guerra, particularmente o Japão, através dos olhos sensíveis de uma das animações mais aclamadas do Studio Ghibli: Túmulo dos Vagalumes (1988). Empresa japonesa famosa por suas animações delicadas de variados temas políticos e sociais, esta obra dirigida por Isao Takahata acompanha a vida de dois jovens irmãos que tentam sobreviver ao fim da Segunda Guerra Mundial, sob ataques sistemáticos dos EUA.

Para quem não se lembra, mesmo após a rendição alemã diante da União Soviética e dos Aliados ocidentais no começo do mês de maio, o Japão continuou em mobilização na denominada “Guerra do Pacífico” até se render oficialmente em 2 de setembro de 1945, logo após ter sofrido o ataque nuclear estadunidense. É justamente neste período de continuidade da guerra japonesa que o filme se insere, retratando os horrores e a miséria ocasionada pelo conflito e pelas contradições que envolviam a escolha da persistência em lutar: um orgulho e perseverança de soldados e cidadãos japoneses que se desvaneciam perante as milhares de mortes e o enorme sofrimento dentro das pequenas e grandes cidades do país.

Ao fim, essa animação tocante nos traz reflexões sobre o cotidiano de guerra vivido por civis e quais as dificuldades e situações que se estendem bem mais que se esconder de ataques aéreos, tendo que enfrentar também problemas de ordem material e emocional pelo interminável e caótico ambiente ocasionado pelo conflito. Não percam! A animação está disponível no YouTube :)

“Auschwitz são as histórias que aconteceram e estão enterradas aqui. Sem o julgamento, essas histórias seguirão enterradas e esquecidas. Não importa o castigo. Importam as vítimas, suas histórias.”

(Thomas Gnielka)

Em 20 de dezembro de 1963, quase vinte anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, iniciou-se em Frankfurt o que ficou conhecido como “O Julgamento de Auschwitz”, no qual 22 homens que participaram do funcionamento do campo de extermínio nazista foram julgados e 17 deles foram condenados à prisão perpétua por assassinato. Esse é considerado um marco na história da então incipiente democracia alemã.

Labirinto de Mentiras, nossa indicação da semana, acompanha o começo das iniciativas que levaram aos julgamentos nos anos 60, através do personagem fictício Johann Radmann (Alexander Fehling), jovem procurador geral alemão em 1958. Embora não tenha existido, sua romantização abarca uma equipe de funcionários públicos (dentre eles o famoso juiz Fritz Bauer) que, na prática, conseguiram retirar o véu que encobria os crimes da era nazista e garantia impunidade àqueles que participaram do genocídio e conseguiram seguir suas vidas normalmente no pós-guerra.

Indicado ao Oscar em 2016, a produção do italiano Giulio Ricciarelli escancara a fragilidade do sistema jurídico alemão ao tentar, sem sucesso, analisar por suas normas um acontecimento tão traumático quanto o Holocausto. Além disso, o filme nos mostra como o processo de desnazificação na Alemanha também resultou em uma espécie de amnésia coletiva, em que não fazia-se útil encarar os crimes do passado.

A obra cinematográfica levanta uma série de questões importantes na compreensão do regime totalitário nazista, como culpa, responsabilidade e moral; e coloca em xeque a capacidade da sociedade, não somente a alemã, de manter intocadas as feridas abertas de sua história.

Esse filmão está disponível no Amazon Prime! Vale muito a pena assistir 😉

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